o cuspe e o asco | por betto della santa

o encontro de pedro com o nojo

pedro deitou-se, pensando… a inércia me devora, enraízase em meu corpo, como líquenes na pedra — se fico deitado. sentia fluir de seus ossos a inércia e brotar de seus dedos, como cardos, o nojo. preciso caminhar.

manoel de barros

coronel ustra foi chefe do doi-codi do ii exército-maior durante os anos de chumbo do estado de exceção no brasil. o lugar que ocupa no aparelho repressivo da ditadura empresarial-militar, portanto, não é banal.

carlos alberto brilhante foi o oficial militar mais temido do regime ditatorial. o órgão central que presidiu em são paulo foi apontado por várias dezenas de perseguidos políticos, e familiares de vítimas, como o principal responsável por perseguição/coerção, torturas/espancamentos e assassinatos/desaparecimentos. não vou entrar nos pormenores dos relatos escabrosos, das minúcias de perversão, no requinte da crueldade.

não pretendo com essa nota alentar um sentimento de vitimização da resistência, que não nos serve de nada, nem suscitar a delícia dos facínoras, o que seria um despautério. mas apenas ressaltar que abaixo das patas dos cavalos, mais baixo do que o estrume que evacua o animal quadrúpede, inferior à escala dos vermes que se refestelam em seu interior, está outro personagem da política brasileira.

jair bolsonaro exaltou, a favor de seu voto pelo impeachment político, a “memória do coronel ustra, pavor de dilma rousseff”. como bem sabemos, dilma rousseff, presidente da república, fez parte da resistência. se foi torturada ou não, se expropriou bancos ou não, se sequestrou dirigentes ou não, e até mesmo se lia literatura ruim -como o autor de materialismo dialético e materialismo histórico, josef stálin, ou não- não vem bem ao caso.

como militante política da organização clandestina var-palmares não se sabe, segundo documentação pública, a forma e o sentido de seu engajamento efetivo em ações conspirativas para derrubar o regime político. não se sabe mesmo com todo o alarido das comissões da verdade. não se sabe mesmo com todo anúncio da importância da memória. não se sabe e não se pôde julgar os agentes dos crimes de lesa-humanidade.

o enfrentamento do passado tenebroso não foi uma marca da presidente da república. tortura e assassinato são palavras brutais. exílio e sequestro não menos. mas para escrever a história realmente existente de um país como o brasil não há como contorná-las. a lembrança mesma de episódios como esses é mesmo fraturante. não é, mesmo, nada fácil. mas não existe outra maneira de superá-los sem chamar o mal pelo próprio nome no tempo presente alertando para os perigos aqui agora.

a barbárie suprimida, apagada ou recalcada pode voltar a ter lugar. a fórmula política da anistia, a ausência de uma justiça de transição e o silenciamento sistemático não fazem mais do que fazer retornar o reprimido. o caminho escolhido pelo pt, a linha de menor resistência, foi o de subsumir a memória nacional em troca de uma agenda eleitoral.

pois bem. os holofotes midiáticos se voltaram não para o acinte, não para a violência maior e não para o que de fato importa. mas focaram o que seria o surto psíquico de um parlamentar sob regimento da câmara, em plena votação do processo de impeachment, e sua falta de decoro. o cuspe, enfim. jean williys, do partido socialismo e liberdade, cuspira na cara de jair bolsonaro, do partido social cristão.

“… o meu encaminhamento de voto. ele não gostou, obviamente, porque peguei pesado. perderam em 1964, perderam em 2016. parabéns ao coronel ustra, o pavor de dilma rousseff. me encaminhei pelas forças armadas, pela democracia, em defesa da família. e das crianças nas escolas. talvez seja isso, não é? ele queria aprovar o kit gay, perverter nossas crianças, em sala de aula, subverter a democracia, acabar com a família. baixou o nível. ficou agressivo. perdeu a cabeça.” ustra morreu de câncer de prostáta antes de ser julgado por seus crimes. ustra morreu sem uma sentença. viveu uma longa e buliçosa vida de impunidade.

nesse preciso momento não importa se jean willys excursionou pelo estado de israel ou reivindicou sua viagem. não importa se há mais ou menos acordo com seu modo de agir e pensar em relação a isso ou aquilo, no parlamento ou fora dele. sequer importa se é um homossexual negro ou uma mulher branca, se é um liberal radical ou um socialista moderado, se é professor universitário ou operário metalúrgico. o que importa é se estamos do lado do cuspe ou ao lado do asco.

a declaração de voto, aqui e agora, é de que não houve nada de mais dignificante na pavorosa noite do show de horrores do que o cuspe acima aludido. mais do que a minha simpatia esse cuspe tem a minha saliva. a força de meu fôlego. o meu pigarro mais de dentro. todo o meu catarro. esse cuspe é também meu.

o asco é ustra. o asco é psc. o asco é a tortura. o asco é a repressão. mas o asco é também o parlamento. e o asco não deixa de ser o pacto social que pendeu uma ponte entre vencedores e vencidos. o asco é pela responsabilidade política por abrir caminho para o asco. o asco é pelos bem-intencionados que pavimentaram o caminho para o inferno. as palavras mais ofensivas, insultantes e repugnantes não foram “queima-rosca” ou “boiola”, vitupério banal com que se enfrenta todos os dias qualquer individuo não-heterossexual em um país muito atrasado. stonewall, os anos 80 -no brasil- e todo movimento combativo de gays e lésbicas foi grande o bastante para subverter a ordem lingüística que aprisiona os subalternos invertendo, sistematicamente, os seus signos. a cena é patética o bastante como para compará-la ao quê já se chamou a 5a. série do ensino colegial. o bully babão de um eterno, e frustrado, reservista da caserna. ridículo, no máximo. motivo de escárnio.

poucas vezes na vida um bom cuspe na fuça de alguém é uma resposta política e social à altura dos acontecimentos. é muito mais do que um tapa na cara ou baixar um dedo em riste. o cuspe não é um abaixo-assinado de petitório online. não é uma concentração de claque com bandeiras compradas e cabos eleitorais de fronte ao parlamento. o cuspe não é um evento de facebook ou uma lista de emails. um cuspe também não é bater panela na varanda do apartamento ou ir para casa -no aconchego do lar- negociar por telefone. o cuspe é dignidade humana. o cuspe é vida. o cuspe é, enfim, o anti-asco do bem-falar, do bem-vestir-se e do bem-portar-se dos homens de bem. o cuspe -esse cuspe- é como uma modesta e minúscula centelha de altivez. a boçalidade deve ter -e terá- limites impostos.

o cuspe de jean willys em direção a jair bolsonaro está à altura do sapato atirado contra george bush jr. por muntadhar al-zeidi, jornalista iraquiano, em coletiva de imprensa na década passada. o cuspe, aliás, contém a mesma saliva de um beijo. quem beija troca saliva contendo diversas substâncias. gorduras, sais minerais, proteínas. a troca incentiva a produção de anticorpos, relaciona-se com antígenos, evita doenças. um bom beijo, como deve ser, relaxa a musculatura, produz bem-estar, previne cáries, queima calorias e, inevitavelmente, secreta tudo aquilo que contém um cuspe. nunca ouvi falar de ser humano adulto, saudável, com nojo de beijar na boca. pelo contrário, a contrapêlo, muito pelo contrário.

o cuspe é o antiasco. o asco é o anticuspe.

quão mais escura é a noite, mais brilham as estrelas. no escuro do parlamento da meia-noite de pavor brasileira o cuspe resplandeceu em beleza, plenitude e dignidade. a saliva do cuspe -seu fluido aquoso e transparente- é a secreção glandular da cavidade bucal dos homens. suas enzimas, minerais e aminoácidos -contudo- dificilmente tem uma função propriamente política. pouca gente sabe, porém, que se trata dos mais complexos, versáteis e importantes fluidos corpóreos. e que supre um espectro da mais larga amplitude de ondas das necessidades humanas. o metabolismo social de qualquer civilização brasileira digna desse nome não pode prescindir de um lubrificante como esse. mas um cuspe é um cuspe. e um homem é um homem. nem mais nem menos. o cuspe limpa, lubrifica, protege e desinfeta. o asco suja, seca, desbanca e putrefaz.

o cuspe não é mais do que um começo. só uma semente de vida. o asco é o princípio do fim. é uma semente de morte. tempos difíceis, as escolhas se impõe:
devemos escolher cuspir em todos os bolsonaros. todos. todos eles.
eles não nos representam.
o asco tem de ver seu fim.

odeio o ano-novo | avanti!, 1916, torino

não se sabe ainda ao certo se o texto pertence mesmo à bôa lavra de antonio gramsci. ‘odio il capodanno’ (1916) é um belo texto no qual supostamente gramsci destilaria o que podemos chamar como ‘o bom mau humor’ contra a mercadorização do afeto e a comoditização da cognição que sóem grassar em época fim-de-aneira. os novos estudos genético-diacrônicos sobre a letra do sardo desenvolveram técnicas de filologia vivente e bibliologia operante do mais alto nível, e a última palavra ainda está por ser dada. sem entrar no mérito da polêmica autoral, marcamos na rubrica o intelectual coletivo responsável pela gestão colegiada do aparelho cultural em questão: o jornal avanti! se a pena foi/era de nino, bem, deixemos com o adágio italiano: ‘se non è vero, bene trovato.’ um texto comunista, apócrifo, que bem poderia ser assinado com um elegantíssimo (e já algo lapidar) ‘da redação’. va bene?

* odeio o ano-novo (em português):

toda manhã, quando me levanto ainda sob céu de brigadeiro, eu sinto que para mim é ano-novo.

por isso, eu odeio esse fim-de-ano com deadline fixo que faz da vida e do espírito humano uma empresa comercial, com seu notável informe, organograma e balancete para a nova gestão. fazem perder o sentido de continuidade da vida e do espírito. acaba-se por acreditar a sério que, entra ano e sai ano, não haja solução de continuidade e começamos a dar conta de venturas e desventuras etc. etc. etc. é uma confusão geral de datas.

dizem que a cronologia é a espinha dorsal da história; e pode-se concordar. mas também temos de concordar que há quatro ou cinco datas fundamentais, que qualquer pessoa decente tem gravada a cinzel na mente, que meteram a brutos golpes, na história. uma deles é o ano-novo. o novo ano da história romana, ou da idade média, ou da era moderna.

e ele se tornou tão intrusivo e assim fossilizante que surpreendeu-nos a imaginar às vezes que a vida na italia começou em 752 e 1490 ou 1492 são como montanhas que a humanidade teria atravessado de repente, encontrando-se daí em um novo mundo, entrando aí em uma nova vida. então, a data torna-se um fardo, um parapeito que nos impede de ver que a história continua a se desdobrar com o mesmo fio condutor inalterado, sem paradas súbitas, como quando o cinematógrafo rasga o filme se há um intervalo de luzes brilhantes.

por isso, eu odeio ano-novo. eu quero fazer de todas as manhãs um ano-novo para mim. todos os dias eu quero chegar a um acordo comigo mesmo, e me renovar a cada dia. nenhum dia reservado para o descanso. o descanso eu mesmo escolho para mim, quando ficar bêbado de vida intensa e quiser dar um mergulho na animalidade, a fim de recobrar nova força anímica.

nenhum travestismo espiritual. cada hora da minha vida gostaria que fosse nova, ainda e quando atada àquela já atravessada. nenhum dia de júbilo com rimas coletivas compulsórias, em comunhão com tantos estranhos que não me interessam. por que tripudiaram os avós de nossos avós etc. etc. etc., e devemos também sentir vontade de tripúdio. tudo embrulha o estômago.

espero a chegada do socialismo também por este motivo. porque irá jogar na lata de lixo da história a todas estas datas que já não têm qualquer ressonância em nosso espírito, e então criar outras, as quais serão, pelo menos, as nossas próprias, e não daqueles que nós tivemos que aceitar sem beneficio de inventário remontando desde nossos tolíssimos antepassados.

1. de janeiro de 1916, avanti!, edição turinense, linha-fina sotto la mole.

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* odio il capodano (em italiano):

ogni mattino, quando mi risveglio ancora sotto la cappa del cielo, sento che per me è capodanno.

perciò odio questi capodanni a scadenza fissa che fanno della vita e dello spirito umano un’azienda commerciale col suo bravo consuntivo, e il suo bilancio e il preventivo per la nuova gestione. essi fanno perdere il senso della continuità della vita e dello spirito. si finisce per credere sul serio che tra anno e anno ci sia una soluzione di continuità e che incominci una novella istoria, e si fanno propositi e ci si pente degli spropositi, ecc. ecc. è un torto in genere delle date.

dicono che la cronologia è l’ossatura della storia; e si può ammettere. ma bisogna anche ammettere che ci sono quattro o cinque date fondamentali, che ogni persona per bene conserva conficcate nel cervello, che hanno giocato dei brutti tiri alla storia. sono anch’essi capodanni. il capodanno della storia romana, o del medioevo, o dell’età moderna.

e sono diventati così invadenti e così fossilizzanti che ci sorprendiamo noi stessi a pensare talvolta che la vita in italia sia incominciata nel 752, e che il 1490 0 il 1492 siano come montagne che l’umanità ha valicato di colpo ritrovandosi in un nuovo mondo, entrando in una nuova vita. così la data diventa un ingombro, un parapetto che impedisce di vedere che la storia continua a svolgersi con la stessa linea fondamentale immutata, senza bruschi arresti, come quando al cinematografo si strappa il film e si ha un intervallo di luce abbarbagliante.

perciò odio il capodanno. voglio che ogni mattino sia per me un capodanno. ogni giorno voglio fare i conti con me stesso, e rinnovarmi ogni giorno. nessun giorno preventivato per il riposo. le soste me le scelgo da me, quando mi sento ubriaco di vita intensa e voglio fare un tuffo nell’animalità per ritrarne nuovo vigore.

nessun travettismo spirituale. ogni ora della mia vita vorrei fosse nuova, pur riallacciandosi a quelle trascorse. nessun giorno di tripudio a rime obbligate collettive, da spartire con tutti gli estranei che non mi interessano. perché hanno tripudiato i nonni dei nostri nonni ecc., dovremmo anche noi sentire il bisogno del tripudio. tutto ciò stomaca.

aspetto il socialismo anche per questa ragione. perché scaraventerà nell’immondezzaio tutte queste date che ormai non hanno più nessuna risonanza nel nostro spirito e, se ne creerà delle altre, saranno almeno le nostre, e non quelle che dobbiamo accettare senza beneficio d’inventario dai nostri sciocchissimi antenati.

1 gennaio 1916, avanti!, edizione torinese, rubrica sotto la mole.copacabana-1

todos são escritores (cinco dicas e pitacos para ajudar à escrita do dia-a-dia) | por betto della santa

a conhecida afirmação de antonio gramsci, de que “todos são intelectuais”, inicia por referir uma esfera fundamental do ser social: a linguagem. na medida em que todos fazem parte de uma comunidade semiótica, isto é, que são partícipes de determinado grupo de falantes de uma língua específica, já fazem parte de um “conjunto de noções e de conceitos determinados e não simplesmente palavras gramaticalmente vazias de sentido” e, nesse sentido, constróem inventiva e renovadoramente uma concepção de mundo. se nem todos seriam intelectuais profissionais ou filósofos sistemáticos, como nem todos são chefs de cozinha, todos sabem como fritar um ovo.
partindo do pressuposto do letramento dos usuários das redes sociais, cujo suporte é o código verbal, e de que aqui “todos são escritores”, e também compreendendo que há entre os usuários escritores profissionais (como os jornalistas, dramaturgos, poetas, cronistas, cientistas sociais, historiadores, agitproppers, correspondentes operários, intelectuais socialistas e muitos outros), decidi socializar algumas referências literárias (em sentido amplo) mais ou menos conhecidas (e reconhecidas) que tem por objeto o ofício da palavra escrita. não se trata de uma lista exaustiva nem nada do estilo. tão-só algumas referências comentadas, com os seus respectivos atalhos.
1) italo calvino. seis propostas para o próximo milênio.
. trata-se, obviamente, de um clássico. organizado como “lições americanas”, palestras a ser proferidas nos eua, calvino faz uma passeggiata pela literatura universal em busca de valores nucleares:
http://bit.ly/1pwvll6
via sueli corvacho/valerio arcary

2) bertolt brecht. as cinco dificuldades para dizer a verdade.
. neste ensaio o autor se dirige às pessoas que escrevem sob a ordem do capital e intencionam dizer a verdade. e elenca uma série de obstáculos desigualmente combinados, numa determinada sucessão, para tanto:
http://bit.ly/1rh3r7t
via sérgio audi

3) ricardo piglia. ¿qué va a ser de ti?
. a palestra parte de calvino e brecht aclimatando tais dificuldades à semiperiferia do capital, em especial às letras portenhas. o modelo-base do qual parte piglia é o jornalismo narrativo do argentino rodolfo walsh:
http://bit.ly/1salssl
via silvia adoue

4) georg orwell. politics and the english language.
. o opúsculo ataca a crise da política a partir da crise das letras. tenta demonstrar como um refinamento da linguagem pode levar a um pensamento mais preciso e incidir na luta por uma nova civilização:
http://bit.ly/1xrxydt
via raquel varela

5) peter fryer. lucid, vigorous and brief: advice to new writers.
. o folheto foi produto de uma série de oficinas de redação ministradas a trabalhadores ingleses interessados na escrita, em geral, e na reportagem, em particular, com a preocupação de escreverem para ser compreendidos.
http://bit.ly/1minx6w
via margaret mcadam/martin ralph

6) eduardo galeano. defensa de la palabra: literatura y sociedad en america latina.
. o artigo célebre do escritor uruguaio trata de uma questão central para as sociedades periféricas do sistema-mundo: para quê e para quem escrever? não há resposta fácil ou indulgente para quem optou pelo inconformismo.
http://bit.ly/1mfngnb
via betto della santa

pedras rolantes :: a ‘new’ new left, a ‘old’ new left e os anos 60/70 nas ilhas* | por betto della santa

*[parte de nossos estudos e pesquisas sobre marxismo inglês, nova esquerda e cultura política global dos anos 60/70.]

os agrupamentos político-editoriais que deram vida à new left review (nlr)Furgão – the new reasoner, de ex-comunistas políticos, e universities and left review, ex-trabalhistas acadêmicos – foram animados, por assim dizer, por um forte movimento reivindicativo de massas, i.e., a campanha pelo desarmamento nuclear. socialmente denso e politicamente difuso, com alta voltagem, entablado pela ala esquerda do movimento trabalhista e galvanizado pela renovada tradição, dos new left clubs, tratou-se da principal oposição de esquerda no país. no entanto, já em 1961, tal novo movimento colapsou e, quando veio abaixo, deixou desconcertadas ambas correntes que formaram à nlr. a simultaneidade de crise política e editorial, assomou-se outra crise; a financeira e de circulação. quando, primeiramente, assumiram o comitê da revista os jovens de vinte e poucos anos que formaram sua equipe editorial – independentemente do juízo que se faça sobre o que se passou, seja um cenário de coup d’etat jornalístico ou «embarcação abandonada» –, o que se queda claro é que as análises da situação eram radicalmente distintas no que se refere aos diferentes aspectos de figura/fundo com que realizaram o retrato social e político à época.
a imagem de t.w. adorno abertamente desautorizado pelo então movimento estudantil alemão, por um lado, e um misto de assombro e desinteresse com que os acontecimentos foram recebidos pelos ex-intelectuais e historiadores do cpgb marcaram a nítidos contrastes, por outro. o jornal britânico the times – expressando aí ao terror das classes proprietárias inglesas – trouxe como capa-símbolo da década, à edição de 5th de setembro de 1968, manchete afirmando que edifícios-chave de londres seriam ocupados como o sinal de uma revolução. para se compreender à milieu que sucedeu, já histórica e/ou políticamente, aos ex-comunistas é necessário – de alguma forma – ambientar à realidade interestrutural e às forças subjetivas. no nosso caso, importa sublinhar à autopercepção da geração sucedânea sobre aquilo que consideravam as debilidades e limites da extraordinária cepa de historiadores / intelectuais ex-comunistas, em geral e, em particular, a problemas e tergiversações que de toda forma conectavam-se às questões relativas aos «quê podemos saber?» + «quê devemos fazer?» do momento histórico-político sobre o qual lhes tocava uma resposta – tática e estratégica. por razões que a razão explica – e pulsões que freud tematiza – o grupo de historiadores e de intelectuais comunistas dissidentes foram implacáveis críticos da nova formação e do novo projeto representados pelo novo grupo, ora em questão. a eloqüência da conjugação verbal-estética e o seu vigor moral-político são todo um capítulo dos estudos lingüísticos e históricos – até mesmo literários – dos gêneros de discurso clássicos; da polêmica política.
os jovens eram, na primeira metade de seus vinte anos, os únicos dispostos a tomá-la [nlr], e nós o fizemos com o quê era na verdade uma espécie de embarcação abandonada. para nós, os 60’ não eram bem um momento de derrota política como o era para os outros. os mais velhos tinham enormes esperanças a respeito desta grande campanha e acharam que isso iria levar a um giro político, para a esquerda na inglaterra, e isso não aconteceu. eles ficaram bastante desanimados, para já não dizer […] desmoralizados. mas para os jovens, de minha geração, o que importava – se você pensar nesses anos – era, na verdade, a grande revolta cultural predominantemente da classe trabalhadora inglesa: a era dos beattles e dos rolling stones, esse era o nosso momento e nós nos sentíamos nas nuvens, isso era fantástico! os velhos tabus estavam sendo quebrados, e uma grande reviravolta estava em marcha, «somos a onda do futuro». uma maravilhosa sensação de arrogante autoconfiança, eu diria. nós tínhamos aquele terrível sectarismo da juventude, o que os americanos chamariam «ageism». eu me lembro vívidamente – aos vinte e poucos isso era bastante comum –; «qualquer um com mais de trinta anos é um cadáver, já está morto, só nós importamos». obviamente, nós tínhamos muito o quê aprender da vida. (fronteiras do pensamento, café filosófico, tv cultura/instituto cpfl, perry anderson).
uma milieu; uma geração. o projeto vis-à-vis dada formação. como se dá tal ato? a “grandeza de alma, que, por um momento apenas, os identificaria com a alma popular, a genialidade que instiga, a força material, ao poder político, a audácia revolucionária que arremessa ao adversário a frase provocadora: ‘nada sou e serei tudo’.” na frase marxiana, da crítica à filosofia do direito hegeliana, uma pista se coloca, para a sua compreensão. a cotidianidade reificada/reificadora, subsumida a estruturas de poder, leva os individuos a viver seu destino tal qual uma condição incontornável. ainda que submetidos às mesmas condições que seus companheiros-de-viagem, não vivem simbolicamente a tais condições enquanto base para o pensar e agir coletivos, mas como serialidade, nos termos de sartre: «c’est la vie», mote à la française. mas há lapsos em que o impossível advém inexorável. a autocrítica constante, a disruptiva interrupção, o voltar aos inícios, o impiedoso motejar às próprias misérias, o derrumbe dum inimigo – uma e outra vez reagigantado –, e o recuo constante – ante a magnitude, sem-fim, dos próprios objetivos –, cria à situação que torna infactível qualquer retorno, e na qual as próprias condições gritam: hic rhodus, hic salta! (eis aqui rodes, heis aqui de saltar!).
a fábula esópica citada no mouro renano foi de uso para a narração do espírito mesmo da revolução proletária, n’o 18 brumário mas, também, estranhamente, n’o capital: “nosso possuidor de dinheiro, por ora ainda presente só qual capitalista larvar, tem de comprar às mercadorias a seu valor, vendê-las a seu valor e, ainda assim, extrair, ao final do processo, mais valor que lançara nele. sua metamorfose numa borboleta tem que se dar à esfera da circulação, mas não tem que se dar à esfera da circulação.” sua transformação teria lugar quando a impossibilidade fosse, daí, impossível. da descrição à segunda seção do livro primeiro à narração épica d’o 18 brumaire – austera determinação x volitivo livre-arbítrio – conta-se-nos um acontecimento sintético revelador: impossibilidade de mudar enquanto impossibilidade de viver. o pensée francês remete à crise da monarquia absoluta, que levou à eclosão da velha revolução francesa; nada obstante, podemos perquirir outras angulações para tal ato. da mesma forma que um acontecimento sintético poderia levar à fusão e à própria superação, de uma sua situação de serialidade descobrindo, na ação coletiva do grupo, condições de abrir às barreiras e de superar «o campo prático-inerte»; pode-se conjecturar que um modo de agir epicizante de uma autodeterminação social e política, provoca um efeito sobre os individuos, mesmo aqueles que não estejam envolvidos mais direta / presencialmente em seus acontecimentos.
o efeito de deslizamento do sentido seria uma condensação dum deslocamento de forças. dennis potter, dramaturgo inglês, escrevera: «é impossível ser jovem numa terra morta.» os jovens seres seriam, aí, impelidos a agir contra a ameaça comum, criando fusão grupal que abre passo para um espaço liberto, a práxis. o desejo de manter tal força grupal leva tais indivíduos, que encontraram a fusão no grupo, a um “juramento”, a primeira forma do projeto grupal e, depois, à “fraternidade-terror”, momentum em que o grupo trás dentro à ameaça externa e a usa como forma de manter à solidariedade grupal; passa ao organizar, ao instituir e, eventualmente, burocratizar, que trás novamente à serialidade e à alienação. ora, tão trágica narração dos eventos revolucionários / contrarrevolucionários pode até nos revelar uma dialética mitigada em sartre – inspiração forte no primeiro anderson – na qual toda externalização/objetivação redundaria em alienação/estranhamento mas, sobretudo, é um interessante recurso heurístico para se apreender o real do processo de grupalização. já vimos que eventos de 1956 – nas distantes suez e budapeste – forneceram algo como o choque histórico-social que levara à conscientização política “e à necessidade de ir à rua”.
mas, na vaga de 1967-1975, os acontecimentos sociais, políticos, econômicos e culturais são o momento decisivo do «point of no return» para um empowerment coletivo/comunal. das polêmicas histórico-políticas sobre a presente crise e suas origens, no início dos 60’, a finais da década, com o advento das barricadas/passeatas, ocupações/greves, sentaços/atos, marchas/concentrações, meetings/discursos, congressos/assembléias, rallies/confrontações o ponto de viragem produzira às condições objetivas e subjetivas para o espírito de corpo. uma mudança de maré histórica de tipo político-cultural vinha operando molecularmente com uma amplitude de ondas ampla e difusa e, não à-tôa, anderson relaciona-a à vaga do rock’n’roll inglês que, segundo o autor, teria a sua expressão genuína nos rolling stones. é incorreto dizer que os stones não são «grandes inovadores». talvez uma polarização stones-beatles, tal como adorno construiu entre schoenberg e stravinsky (evocada por a. beckett), ora, pode realmente ser um exercício fecundo.
basta dizer, aqui, que apesar de toda a inteligência e refinamento, os beatles nunca se desviaram para além dos estrictos limites da convenção romântica: momentos centrais de sua obra são a nostalgia e o inefável, ambas tradições eminentemente consagradas da classe média da inglaterra. a categoria pejorativa de lukács do angenehme – «agradável» [palatável] que entorpece e pacifica – se encaixa perfeitamente em sua obra, com uma precisão mortal. já por outro lado, os stones se recusaram a uma ortodoxia estabelecida da música pop; seu trabalho é uma negação sombria e realista da mesma. é um fato surpreendente que praticamente não haja uma só composição jagger-richards que seja convencionalmente já sobre tanto um “feliz” quanto “infeliz” relacionamento pessoal. amor, ciúme e lamúria – a substância de 85% do pop tradicional – está em falta. a exploração sexual, a desintegração mental e a imersão física são seus elementos substitutivos.
sob o pseudônimo literário de richard merton – que, no satírico roman à la clef de tariq ali, redemptions, é rememorado tal como um “frenético dançarino” – anderson dá o ar o qual se respirava à época. ali se condena teatro/romance/cinema ingleses em seu conjunto tal como formas incapazes de configurar a experiência vivida naquela inglaterra. seu olhar se volta ao fenômeno da música popular inglesa, em especial o rock’n’roll e, já particularmente, no interior do fenômeno stones-beatles, um juízo estético-social potente. quiçá não coincidentemente mick jagger e keith richards fossem companheiros de viagem do international marxist group – o partido trotskista inglês, com membros na nlr – no início de 1968. muito já se escreveu sobre o fazimento do sentido de pertença moderno de englishness a partir do rock anglossaxão, bem como o fenômeno de internacional-popular a que deu hora e lugar, para além das fronteiras insulares; e os ensaios mertonianos de 68’ e 70’ figuram, até hoje, como um dos pontos mais altos de descrição e narração do quê compõe a etnomusicologia, a crítica / teoria musical e a história social do rock como área.
o comentário de anderson sobre os stones parte da premissa do valor e complexidade de sua beleza interna e dignidade própria, como w. benjamin fez em relação a b. brecht em sua poesia política/teatro épico, sem em nenhum momento cancelar à criticidade do juízo. falando sobre o álbum beggars’ banquet afirma que este «suprime qualquer vestígio da categoria liberal de protest-song.» o surpreendente é este ter sido escrito antes mesmo do reconhecimento de grandeza dos stones, concentrado na transição de registros tais como “aftermath and behind the buttons”, sobre temas como a exploração sexual (“backstreet girl”/“yesterday’s paper”), doença mental (“mother’s little helper”/“paint it black”) e a vontade (ou a incapacidade) de orgasmo (“satisfaction”/“going home”). (quem já fez o amor selvagem, ao som de sympathy for the devil, sabe do que está falando rick merton.)
a nlr foi um tipo de journal que editou fascículo com manual prático de controle de natalidade; falou a respeito de crítica de televisão – interesse partilhado com o não-tão-velho r. williams –; publicizou formas de combate operário-estudantil.
o ideário (e o imaginário) duma torre de marfim sob o qual é confrontada a realidade político-editorial da nlr realmente existente muitas vezes se ressente de um anacronismo-teleológico que olha para o passado com lentes pouco autoconscientes sobre sua constituição no presente. o oliampianismo retrospectivo aplicado ao conjunto da história editorial de tal revista nos revela que sequer a catalogação bibliológica, operação intelectual a mais naïf das ciências humano-sociais, parece ser axiológica e/ou moralmente neutra. compreeder tal quadro de dialetização recíproca entre a milieu pessoal e a estrutura social nos demanda movimentos aparentemente opostos, mas essencialmente complementares, de aproximação e distância / identidade e estranhamento ou, como o diria um galhardo jornalista narrativo uruguaio, um olho no microscópio e outro na luneta. um “mapeamento” em geral do que já se disse “coordenadas históricas” pode vir a calhar para situar o tempo e ubicar no espaço à nlr; seja para definir a termos de recuo e avanço de esfera pública plebéia e de revista normal.
os quadrantes histórico-político-culturais internacionais dos anos 60 e 70 ligam-se às condições materiais e espirituais presentes já especialmente na europa ocidental e nos estados unidos, mas que eram partilhadas também por outros países da américa latina. a crescente urbanização/industrialização, a consolidação de um modo de vida citadino, aumento quantitativo das classes intermediárias, o acesso crescente ao ensino superior, o peso significativo da juventude na composição estatístico-demográfica da população, não-representatividade social e política das estruturas de poder, o avanço técnico e científico. ao alcance da população trabalhadora, e das pessoas comuns, estavam eletrodomésticos como os aparelhos de televisão, a pílula anticoncepcional, o pleno emprego e automóveis. essas condições não explicam por si sós as ondas de rebeldia e melancolia à época, tão-só possibilitariam, historicamente, que florescessem ações políticas e culturais contestadoras, aproximando a política da cultura e a vida cotidiana da arte; + a «imaginação ao poder»: uma conjuntura internacional de prosperidade econômica; crise dos sistemas escolares; ascensão ético-política à insubordinação; vasta/difusa onda antiimperialista/anticapitalista; negação duma sociedade de imagens para o consumo; ação direta de massas em protesto; conexão íntima entre a resistência e luta contra a estrutura social e a milieu pessoal; novos movimentos sociais feministas, antirracistas, ecologistas, pacifistas e/ou por direitos civis. a modernidade urbana capitalista, já conforme a sugestão da polêmica anderson-berman: a «intersecção de uma ordem social dominante semiaristocrática, a economia capitalista semi-industrializada e um movimento social operário semi-insurgente»; caracterizara ao modernismo, historicamente, por uma sua resiliência, à especialização academicista nas artes, a indissociabilidade de aspectos pré-capitalistas na cultura e na política, em que as classes aristocráticas – e landowners – dariam a tôada cultural e política; emergência de novas invenções industriais, de impacto social na vida cotidiana / geradora de expectativas emancipatórias no desenvolvimento das forças de produção através da técnica-ciência e por uma proximidade imaginativa da revolução social / política (anderson, 1986, p.18-19).

o último quartel do século xx presenciou à emergência dos novos movimentos sociais e a formas de tipo associativo. a ascensão dos movimentos sociais, nos idos dos anos 60 / 70, a luta social e política pela expansão pública dos direitos fundamentais e a afirmação da identidade de sujeitos coletivos, até então à margem da história, marcou às formas mais tradicionais – de participação social e política – e introduziu novas táticas e métodos de mobilização social popular, com formas organizativas e estratégicas já renovadas. a nova quadra social mundial forneceu o contexto efetivo no qual tais movimentos e organizações tiveram lugar e podem ser caracterizados por um mapeamento de coordenadas históricas: i) crise/crítica das formas de organização consubstanciadas nos partidos stalinistas e/ou socialdemocratas – tal qual o cpgb e o lp, na inglaterra – e os seus sindicatos atrelados; ii) crise/crítica do welfare state e o seu potencial de passivação das classes subalternas; iii) crise/crítica dos regimes políticos ditatoriais da américa latina ou do leste europeu. ao sublinhar momentos de crise+crítica sublinhamos raiz comum de objetivo/subjetivo, isto é, as crises materiais do ser social e a respectiva forma espiritual de consciência sobre. tais caracteres, combinados de modo desigual, deram origem a formas de associativismo e participação social e política que, rompendo com antigas instituições, inauguraram um novo ciclo histórico com práticas sociais inovadoras, criando novos espaços-tempos duma esfera pública plebeia, solidariedade ativa e produzindo modos originais de reorganização.
no que tange a uma sua realidade interstrutural observamos a manifestação fenomênica da redução tendencial da taxa de lucro e a crise de acumulação (e reprodução) capitalista, que já se apresentam – internacionalmente – desde a década de 1960, tais como os indicativos imprescindíveis para apreendermos aos quadrantes sócio-históricos que conformaram às expressões político-ideológicas atuais duma crise estrutural do capital. um segundo após-guerra consolidara padrão de acumulação do capital e regulação estatal basados na forma social taylor-fordista, o modo de vida americanismo e o predomínio da indústria cultural.
o instante decisivo em que um novo projeto de círculo de cultura e conselho de redação se consolida marcará a quadra social de transição entre formas históricas de devir civilizador. de alguma forma e em alguma medida o tipo de trabalho intelectual que a nlr propositou pode ser descrito tal sui generis justamente por coexistir em uma transição sócio-histórica. uma intelectualidade socialista que já não se dispunha a participar de workers education association ou mimeografar jornais em garagens privadas, mas tampouco ambicionava se projetar em carreiras acadêmicas e aparelhos universitários; não se atraia centralmente por partidos e sindicatos mas tampouco se imaginava tais “intelectuais livremente flutuantes”; admitia qual falácia pretensamente erudita às ciências humanas e sociais axiologicamente neutras mas não se dispunha a abdicar de um padrão de trabalho intelectual elevado como mínimo ao praticado no sistema universitário; não falava a linguagem do sinal das ruas, mas tampouco simpatizava como uma perspectiva de torre de marfim. a oratória ardente de um edward thompson – ou um discreto charme de raymond williams –, intelectuais públicos que conquistaram certa audiência de massas para além do circuito universitário, é algo que não encontra paralelo no que se conhece na nova personalidade pública da nlr. os intelectuais anticapitalistas que conheceram a vida adulta nos anos 60 e 70 tem de fato um processo geracional de ser-estar no mundo bem como modos de agir e pensar outros. a tipologia histórica criada por anderson para distinguir a terceira geração de marxistas à quarta vaga – o que ele nomina de marxismo clássico e marxismo ocidental – são modelos os quais de algum modo não podem ser emulados, e nem superados, pelas suas millieaux.

como veremos na tese, a pugna histórica entre a ultrapassagem das coordenadas históricas que deram origem ao marxismo ocidental – com algumas predições e desempenhos que se confirmaram pelo veredicto da história – e a não-superação dos dilemas e limites impostos pelos tempos e espaços, constituídos e constituintes, levaram a uma crise permanente do que se pode creditar como representação política e/ou identidade intelectual desta geração. mas, e ao mesmo tempo, ou justamente por tal condição, colocaram-lhe uma condição em tudo sui generis e que, com o nexo das devidas mediações e codeterminações reflexivas se pode prestar à explicação social e política de como / porquê assumiram tal forma/conteúdo. uma coisa que as polêmica, réplica e tréplica marshal berman-perry anderson põem de manifesto é o quanto este último optou por um marxismo avesso ao senso comum e à vida cotidiana tal qual práxis reificada e não-reflexiva/crítica e o primeiro abraçou-os tal como cheios de arte e humor – sensibilidade e inteligência – sabedoria popular e inconformismo plebeu, enfim, como, na verdade, «marxismos em luta» não se explicariam só pela idade…
ao definir à imaginação sociológica, w. mills chama a atenção para a interrelação entre história e biografia, i.e., as perturbações pessoais da milieu e as questões públicas da estrutura social. os problemas estão localizados entre biografias individuais e o seu meio – ou milieu – imediato(a), uma experiência aparentemente privada, enquanto as questões públicas são aquelas que estariam ligadas a escalas, mais amplas e históricas, de estrutura. na concepção de mills, a tarefa da sociologia seria articular nexos entre esses tais planos. a pesquisa social seria aí uma atividade significativa pela qual os liames entre problemas individuais e questões públicas são reelaboradas, e uniria conhecimento do senso comum com uma concepção teórica e a construção empírica. o que distingue à pesquisa social de opiniões variadas, insights e rumor é a maneira sistemática em que a vida social e política é perquirida. a pesquisa se inicia com as experiências dos indivíduos, a fim de explorar os temas e os problemas sociais e humanos. esta socialização da experiência permite que reivindicações substantivas, as mais amplas, sejam feitas sobre a relação entre o ambiente social e as suas circunstâncias imediatas.

mills argumentou que situar problemas pessoais dentro das questões públicas – reunir biografia e história – é o quê constitui a perspectiva característica das sociologias. na sustentação de uma prática metódica que produza uma análise profunda e extensa dessa relação entre problemas pessoais e questões públicas, há uma tendência a conceber a subjetividade e a objetividade como perspectivas lógicas que se excluem mutuamente. isso provou ser demasiado simplista e até inútil. uma abordagem o mais crítico-reflexiva das questões sociais de método permite aos pesquisadores acesso à experiência individual e, ao mesmo tempo, resolve às tensões que se dão no meio-lugar subjetividade/objetividade por meio dum vis-à-vis de conhecimento social / senso comum. o ferramental millsiano coloca algumas questões perturbadoras para a investigação que se intende aqui em processo. a experiência coletiva vivida por thompson, hobsbawm e ray williams levou-os dos campos de batalha da segunda guerra mundial a células do pc, de associações de educação operária a diferentes formas / relações de extensão universitária e da edição de livros e revistas a campanhas públicas e plataformas políticas. com quê se poderiam confrontar, em profundidade / extensão, à cultura do vivido de nairn, blackburn e p. anderson? em vários momentos, sobretudo anderson, dedicou-se com exclusividade profissional às atividades intelectuais e políticas próprias do complexo editorial-político da nlr. já williams e thompson produziram, além dos artigos e livros de historiografia social e estudos culturais: discursos, romances, contos, poemas, roteiros de filmes, peças de teatro, ficção científica, programas de tevê, manifestos, ensaios e um sem-fim de outros.
o mesmo, então, que possibilitou uma envergadura intelectual e política, além de longevidade ou consistência, ao legado institucional de uma revista periódica e sua malha editorial correspondente foi o quê limitou às audiências latentes da segunda geração-nlr. a sua força e fraqueza é justamente uma generalização de laço exclusivamente cognitivo ou afetivo com a heração intelectual e literária marxista, ou mesmo seus modos de agir em relação ao jornalismo e à tradução – de tipo comunista em geral – e a ausência de pessoas reais de carne e osso que dessem corpo e alma a aspirações / anseios de emancipação total. que pudessem ser tão cosmopolitas e eruditos foi justamente a impossibilidade real de se voltarem nacionais ou populares. a incapacidade de falar sem mediações a públicos vivos foi o que gerou à ambiência para que se internacionalizassem e multiplicassem leitores de além-mar. mesmo o termo e conceito de uma sua radicalização política em contraste com o reformismo gradualista da geração anterior e insight dialético de sua laborações teóricas devem algo ao caráter abstrato e alta teoria que nunca chegou a testar sua validez à práxis de qualquer agência humana e mediação organizacional que dessem cor/textura às letras.

a afirmação de que a geração de intelectuais e historiadores oriundos das filas do partido comunista da grã-bretanha nos anos 50 – tal qual eric hobsbawm –, encontrou, no brasil uma boa recepção ou difusão editorial (ou acadêmica) não poderá mesmo ser considerada controversa. dum modo geral, ainda, pode-se dizer que a obra mesma, da considerada primeira geração da nova esquerda britânica, teve uma melhor fortuna crítica no país, do que os seus principais sucessores, a assim-dita “segunda geração”. a social history from below, em edward thompson, e os cultural studies, de raymond williams – em seus exponenciais, os mais paradigmáticos –, tiveram uma interessante acolhida, entre os marxistas brasileiros, enquanto que, as obras de perry anderson e robin blackburn, por exemplo, não encontraram (ainda) tamanha sorte. a geração que teve sua gênese a partir da dispersão do círculo originário de intelectuais composto por e. p. thompson e outros – egressos, estes, das filas do núcleo de historiadores do pc britânico –, entorno à nlr e seu projeto editorial, bem como pela sua subseqüente sucessão por ainda jovens (e recém-recrutados, às fileiras da revista) egressos universitários – ou seja, no caso –, anderson & cia. seguindo às trilhas de duncan thompson (2008) e ellen meiksins wood (1995), tais recepções explicar-se-iam desde/através de uma história comparativa entre as respectivas idiossincrasias geracionais e/ou em sua «differentia specifica».
aposta este ensaio que, justamente uma tal formação, de já rica trajetória política e grande valor teórico, em suas aventuras e desventuras, merece uma maior atenção, no sentido de sua tradução, no brasil.
tão-logo a segunda geração começou a desenvolver suas próprias ideias a respeito da história, política e sociedade inglesas e publicá-las, recebeu um feroz ataque de um dos principais – de algum modo “o” principal – intelectual ex-comunista e grande historiador, e.p.thompson, que publicou um explêndido ataque a ela (muito ironicamente chamado “as peculiaridades dos ingleses”), e tal milieu sucedânea sentiu a necessidade de resposta. ao fazê-lo despertaram-se para o fato de que não poderiam soslaiar os mais velhos desse jeito arrogante e fagueiro. tratava-se de uma formidável herança, de grandes figuras, toda uma cepa de historiadores e intelectuais, marxistas e de esquerda. estava à ordem do dia um balanço e um acerto de contas. como fizeram? trataram de explicitar teoricamente à diferença específica que enxergavam – como distância crítica – dessa formidável geração mais velha que incluía gentes como r. williams, e. thompson, e. hobsbawm, c. hill etc. como se diferenciaram subjetivamente – a parir de sua própria referência e meio – deles?
i) eles são grandes historiadores, mas eles não tem uma teoria própria, são empiricistas, “não sabem, mas o fazem”, não tem um grande background teórico-filosófico; ii) o marxismo deles era muito inglês, mesmo antes de assumir a nlr – os meus amigos e eu – o que realmente odiávamos era a insularidade da cultura teórica britânica à época, autossatisfatória, um provincianismo não propriamente de uma pequena nação oprimida mas a autocondescendência típica do provincianismo de um império que uma vez já dominou um quarto do globo e ainda tinha colônias na áfrica, ásia, caribe e, daí por diante, no final dos 1950. então era uma cultura muito autocomplacente que acreditava que não precisava saber o que ocorre na alemanha, frança ou itália, achava irrelevante, cria ter tudo o que necessitava no interior de suas fronteiras e se achavam os melhores. era algo que todos nós odiávamos e, assim sendo, nós nos orientamos muito fortemente em direção às culturas continentais europeias: frança, alemanha, itália, rússia e outras. isso é muito, muito, muito importante. último ponto: iii) uma diferença política. os intelectuais comunistas da geração anterior – thompson, hobsbawm e essa gente – eram um produto de uma muito peculiar experiência no final dos anos 30/40, que era a experiência da «frente popular». o mobilizador-chave das demandas e eixo central que os animou era: precisamos derrotar o fascismo. tanto durante a guerra civil espanhola (1936-7) e, é claro, durante a segunda guerra mundial (1940-5) o tema principal era a necessidade de ser antifascista. a ideia central «frentepopulista» era: nós temos que nos unir com quem quer que seja – não interessa se é a igreja ou roosevelt, não interessam as posições político-sociais sobre qualquer outro assunto – o único critério é que se deveria ser contra o fascismo. então, de alguma maneira, era um tipo defensivo de comunismo. não se tratava de lutar por um outro mundo mas apenas parar os pés da ameaça fascista. quando nós nos politizamos no final dos anos 50 nós não simpatizamos nem um pouco com esse espírito, em parte porque as «frentes populares» eram sempre muito patrióticas a respeito de seu próprio país: lutando contra os alemães, lutando contra os britânicos e por aí vai. e nós suspeitávamos muito desse tipo de patriotismo. em segundo lugar era muito defensivo e levava a borrar as diferenças políticas. nós pensávamos que se algum comunismo nos interessava – nós nunca entramos no pcgb: pequeno, filisteu e recém-havia perdido seus intelectuais mais interessantes – era o momento radical – e internacionalista – da revolução bolchevique, e não a «frente popular». isso é muito, muito importante, não esqueçam, quando foi fundada a união soviética por lenin e os seus camaradas – a «união soviética das repúblicas socialistas» –, não havia uma só marca de enunciação étnica ou geográfica que fôsse em si. foi o único período da história da humanidade em que o nome de um estado foi verdadeiramente tão-só uma pura descrição política. esse era o espírito, internacionalista, com o qual nós simpatizávamos. nós precisávamos buscar um espírito ofensivo para a época que nos tocava viver: das revoluções algeriana, cubana, vietnamita, os grandes acontecimentos na china, isso era o que guiava, e não batalhas de «frente popular» antifascista na segunda guerra mundial. (fronteiras do pensamento, café filosófico, tv cultura/instituto cpfl, perry anderson).

‘cultura do narcisismo’ + ‘mínimo eu’: christopher lasch & amor total, ‘da cabeça aos pés’ | por betto della santa

para sara granemann –trabalhadora em educação da ufrj e camarada comunista– e seu adesivo “stop the umbigation!“: pela acolhida fraternal, os dois dedos de prosa, por não-nunca perder a ternura. e pela bela dica adufrjiana da mafalda [do quino]. (obs.: veja na foto a campanha sindical dos cariocas da ufrj.)

“o novo tempo do mundo e outros estudos sobre a era da emergência”, de paulo arantes (boitempo : sp, 2014), tem muitos e variados méritos. rigorosamente nenhum deles será tratado nesse breve escrito. pelo simples fato de que não se trata do assunto deste texto. e, também, porque paulo arantes e a boitempo editorial não carecem de maior divulgação do que seu aparato agitpropper já alcança ‘de per se’. (e não se enganem a respeito. gosto muitíssimo da escrita de arantes e das edições, muitas delas primorosas, da boitempo. apenas reconheço aqui uma evidência, a saber, a maior editora da esquerda brasileira tem uma máquina publicística que se basta a si mesma e, às vezes, sobra.) o livro e o autor –aqui e agora– vem bem a calhar por uma razão bastante específica: paulo arantes e ‘o novo tempo…’ vem nos falar sobre, entre muitas outras evocações deliberadas –e alentadas inspirações–, um livro de christopher lasch. com título e subtítulostoptheumbigation. (título e, lembrem-se bem!, subtítulo.) o que em lasch interessa a arantes tem a ver com um gênero bastante particular de ‘mal-estar’ social e político de nosso próprio tempo quê, ao fim e ao cabo, reporta à própria ‘noção de tempo’ (ou, se quiserem, uma ‘concepção de história’). mas antes, afinal, quem é christopher lasch?

christopher ‘kit’ lasch (1932-1994) –intelectual público estadunidense reconhecido em seu país de origem– lecionou anos a fio na universidade de rochester. feroz crítico da cultura do ‘american way of life’, publicou mais de uma dezena de livros. para o que nos interessa (mais imediatamente, ao menos) importa dizer que durante os anos 60/70 deu lugar a um deslocamento teórico-crítico que o levou a uma espécie de ‘fusão alquímica’ entre a crítica marxista da ‘sociabilidade de equivalentes’ e o complexo categorial da psicanálise freudiana — para a análise dos indivíduos. (o quê, muito ‘naturalmente’, moveu-o na direção da teoria crítica da, assim-chamada, ‘escola de frankfurt’.) um historiador social da cultura, para dizer de alguma forma, ‘negativamente dialetizado’ a seu próprio tempo. falar sobre lasch demandaria (tempo e) espaço distendido(s) para o tratamento de uma trajetória complexa (e algo contraditória), de difícil apreensão. com a dificuldade adicional de que não se trata de um autor minimamente reconhecido no brasil, muito embora tenha-se traduzido parte de seus escritos no país. nossos objetivos são, de fato e de direito, mais modestos. queremos glosar, ligeiramente, dois livros: ‘cultura do narcisismo’ e ‘mínimo eu’. ao que parece, são livros importantes para decifrar o tempo presente.

como já dissemos –e sublinhamos– os livros de lasch tem título e subtítulo.

pois bem, então. vamos a eles.

1) ‘cultura do narcisismo: a vida americana numa era de esperanças em declínio’:

o livro trata sobre determinado modo de produção –e reprodução– da vida que principia a ter lugar (e hora) a partir do último quartel do século vinte. a realização individual, estreitamente relacionada à sociedade do consumo e à hipostasiação do individuo, em detrimento (e, às vezes, em contra) a projetos coletivos. O retorno ao ‘self’ (‘eu’) + um desinvestimento afetivo (e libidinal) nas relações duradouras com o(s) outro(s) e, sobretudo, a própria experiência vivida (‘passado-presente’). o circuito imediato de circulação de mercadorias, a ‘indústria cultural’ em geral e o singular universo simbólico da nova publicidade –e da velha propaganda– amoldam formas sociais de consciência em termos de novas necessidades e/ou novos desejos que concernem a ideais manufaturados de beleza estética, administração da juventude, redução das relações sexuais à noção (instrumental) de ‘desempenho’ (e ‘gratificação’) –e a redução das relações afetivas a intercursos sexuais (ou ‘one-night stands’)–, superdimensionamento da ideia-força de ‘segurança’ (pública e privada), realização (e sucesso) profissional (e financeiro) e um já largo etecétera de imagens-fetiche a pavimentar à torturada via de um ‘narcisismo’ rarefeito. o narcisismo –para além do que seria uma condição patológica, vejam, o que não é necessariamente o caso– performa uma função psíquica importante, i.e., possibilitar ao sujeito o próprio equilíbrio na percepção mediatizada de suas necessidades/vontades em relação às do(s) outro(s). a exacerbação mórbida/bizarra dos traços narcísicos –promovida, massivamente, pela reprodução ampliada do capital e sua ordem decadente– obstaculiza os nexos de identificação/alterização recíproca entre os indivíduos (aquilo mesmo que lhes possibilita serem individuos ipso facto!) e depõe contra qualquer ideia de bem-estar trans-individual. (margareth thatcher diria, de um modo exemplar, à época: there is no such thing so-called ‘society’, literalmente, não existe tal coisa assim-chamada ‘sociedade’.)
a ‘consciência de si’ (antes mesmo do quê ‘para si’), assim, muito pouco desenvolvida é, mutatis mutandi, uma desproporcional necessidade de se refletir/refratar no(s) outro(s). o sujeito narcísico –o narcisista— adorna o sentido de pertença ao mundo dos homens (ou a falta dele) usando a régua autoantropomorfizada da gestão do impacto de seu caráter (ou a falta dele) sobre os demais. alvoroçado por uma certa angústia contemporânea renovada –no lugar da já velha sensação de culpa judaico-cristã– naufraga na ilha de si mesmo do quê é o ‘hedonismo’, o ‘consumismo’ (de coisas, pessoas, serviços ou ‘experiências’) e, o quê já seria o ápice radical da comoditização mesma da vida –através do corpo–, a ‘autoerotização’. a sociedade civil-burguesa parece ter encerrado um ciclo histórico-político relativo a ideias criativas e programas de futuro. a capacidade (e a vontade) de se debelar com as dificuldades que ameaçam esvai-se. uma crise do capital como modo de vida total se revela por vezes como desespero trágico (e, por vezes, como resignação cínica) em relação à interpretação do mundo, que dirá, então, de sua transformação? o mais elementar ‘senso de história’, da própria história de vida ao processo histórico mais geral, é que sai de cena batendo em retirada em direção à coxia. é preciso compreender a articulação complexa entre psicologia social e história cultural –‘perturbações individuais’ e ‘questões públicas’, diria wright mills– depreendendo-se os traços narcísicos a partir da cotidianidade vivida, o que se afigura como, a propósito, a centralidade axiológica, metódica e orgânica do fazimento da própria obra de lasch. A cisão ocorrida entre o que se espera do futuro e aquilo que remonta ao passado não deixa de ser uma conscripção obrigada a um presente eternal:
“o narcisista não se interessa pelo futuro porque, em parte, tem muito pouco interesse pelo passado. acha difícil interiorizar  associações felizes ou criar um estoque de memórias afetivas para enfrentar à última parte de sua vida, a qual, embora nas melhores condições, sempre lhe traz tristeza e dor. em uma sociedade narcisista (…) a desvalorização cultural do passado reflete não só a pobreza das ideologias dominantes, as quais perderam o pulso da realidade e cederam à tentativa de assenhorear-se dela, mas a pobreza da vida interior do narcisista. uma sociedade que fez da ‘nostalgia’ uma moeda de troca, repudia, pela porção cultural, a sugestão de que a vida no passado era, sob qualquer aspecto, melhor que a vida atual. tendo trivializado o passado, ao igualá-lo a estilos ultrapassados de consumo, modas e/ou atitudes, dos quais abriram mão, as pessoas, hoje em dia, ressentem-se de qualquer um que recorra ao passado para sérias discussões sobre as condições contemporâneas, ou que tente usar o passado como um padrão qualquer com que se julgar o presente. pseudoprogressista, a favor do status quo. contudo, sabemos agora –graças às obras de christopher hill, edward palmer thompson e outros historiadores–, que muitos movimentos sociais radicais do passado extraíram sua força e sustento do mito –ou memória– de uma época áurea do passado ainda mais distante. esta descoberta histórica reforça o critério psicanalítico de que as memórias afetivas se constituem em recurso psicológico indispensável à maturidade, e que aqueles que não conseguem recorrer às recordações de memórias afetivas do passado sofrem, como resultado, tormentos terríveis. a crença de que, em alguns aspectos, o passado foi um tempo mais feliz, de modo algum baseia-se num piedoso ideal; tampouco leva a uma paralisação retrógada e reacionária da volição política.” (p.15-16)
a “cultura do narcisismo” é, também, efeito mesmo da precarização do mundo do trabalho, da esfera pública e das pulsões plebeias. a happyness publicística deveria persuadir às pessoas a buscar a felicidade na esfera do lazer, refugiados no espaço doméstico ou até mesmo na própria ‘individualidade’. a moderna projeção de imagens-fetiche de imediata satisfação, para uma fantasia previamente empobrecida –epítome do consumo de “experiências”–, tem duplo caráter. escuda-se a esfera da circulação de mercadorias enquanto uma alternativa à possível contestação e, ainda, converte-se a própria ‘alienação’ numa nova mercadoria. a desolação espiritual da vida moderna propõe o consumo como a nova forma de ‘re-ligação’ com a comunidade imaginária. a um só tempo promete (e descumpre) a cessação da velha infelicidade e cria (com eficácia) a nova: insegurança pessoal, ansiedade por status, angústia de pais sobre filhos e de cônjuges sobre parceiros. pareço fora de moda perto de meus vizinhos? meus filhos tem tanta saúde quanto os deles? serão tão populares com os amigos? saem-se tão bem na escola? “a propaganda institucionaliza a inveja e sua ansiedade resultantes”, diz lasch. a ‘terapeutização’ extraclínica das últimas décadas do século vinte demandou –da educação dos filhos, passando pela relação entre cônjuges e a vida escolar até o ambiente de trabalho–, desde a psicologia/psiquiatria/psicanálise ‘popular’, maior ênfase em “autenticidade”/“criatividade” (‘como raio em céu azul’, a dispensar disciplina moral-intelectual e/ou esforço material-corpóreo); o ‘otimismo’ volitivo, a ‘crítica construtiva’. conflitos sociais e problemas individuais, cotidianos e históricos, elidem-se, desse modo, sob a superfície de “consenso” e da “harmonia”. a sutil psicologização das formas de dominação social e direção política não deixa de ser uma sofisticação/refinamento/desenvolvimento dos aparelhos hegemônicos e dos aparatos coercitivos das classes dominantes no exercício de relações de poder. como diria karl marx sobre a reforma protestante, não mais a autoridade externa do clérigo da igreja, mas, sim, a sua introjeção padresca no âmago mesmo das relações sociais e das consciências individuais.
o que veio antes –e o que virá depois– passa a importar cada vez menos.
2) ‘mínimo eu’: sobrevivência psíquica em tempos difíceis:
a vida cotidiana “em tempos difíceis” (‘troubled times’) passa a ser algo como um exercício de sobrevivência da pisquê. vive-se um dia por vez. é raro que se olhe para trás, “por medo de sucumbir a uma debilitante nostalgia”, e, quando se olha para frente, “é para ver como se garantir contra os desastres que todos aguardam”. nessas condições, a individualidade/personalidade/subjetividade transforma-se então numa espécie de bem –ou mercadoria– de luxo, fora de lugar em uma época de iminente austeridade. individualidade supõe história de vida, pessoalidade, amigos, família, algo como um ‘sentido de situação’. acossado, sob assédio e sitiado, o ‘self’ (‘eu’) se contrai em um mínimo núcleo defensivo e conflagrado, de guarda alta, diante das diversas adversidades. o equilíbrio emocional exige, daí, um ‘mínimo eu’, não o ‘eu’ soberano do passado. “a preocupação com o indivíduo, tão característica de nossa época, assume a forma de uma preocupação com a sobrevivência psíquica. perdeu-se a confiança no futuro. (…) o risco de desintegração individual estimula um sentido de individualidade que não é ‘soberano’ ou ‘narcisista’, mas simplesmente sitiado” (p.9-10). tal “mentalidade de sobrevivência” manifesta-se em produtos intercambiáveis via indústria cultural, da psicologização do cotidiano trivializada pelos jornais, rádios e tevê, livros de autoajuda, reportagens microcontextuais, na literatura ficcional (notadamente, ‘sci-fi’). desacredita-se assim à política, qualquer ideal de bem-estar social –e coletividade–, a remissão a valores histórico-universais transindividuais –algo além da linhagem dos filhos e da conta bancária, por exemplo– e a cooperação entre iguais. os movimentos antiguerra e ecológico poderiam, desse modo, ocasionar efeitos contrários aos pretendidos, acentuando assim o entricheiramento por detrás de uma mentalidade algo sobrevivencialista. a então perspectiva do conflito nuclear (vide campanha antinuclear europeia liderada por e.p.thompson), da burocracia desumanizadora, da omnipotência das mecorporações transnacionais e órgãos multilaterais, da razão pessimista e a crise ‘de confiança’ com relação à cultura e à sociedade. a insegurança e o desamparo obrigam os indivíduos a acionar certas defesas psíquicas –de tipo narcísico– como formas de sobrevida de uma subjetividade estilhaçada, o refúgio derradeiro da realização humana, em-si e para-si. de alguma forma afinar-se à música do tempo presente é se isolar acusticamente ‘para dentro’, ouvir a fala dos demais como paisagem sonora (ou coisa fonadora, a se manipular com destreza, na mesa de som) e brilhar como farol no palco solo de si mesmo. sem barulho, sem ruído, com um bom estúdio de edição.
uma tal configuração –social e psíquica– tem reverberações/ressonâncias no mundo do trabalho, na estrutura familiar e na concepção mesma de infância/adolescência/juventude. ‘mínimo eu’ –diferentemente de ‘cultura do narcisismo’– foi estruturado como um estudo pré-ideado. a forma-ensaio e a escrita fluida constitui o melhor momento da intelectualidade pública estadunidense em contacto com o público leitor, suas aspirações difusas, suas necessidades sentidas. o narcisismo, segundo lasch, não pode ser confundido com egoísmo/vaidade/autoestima. a mentalidade sitiada (e as estratégias de sobrevivência psíquica por ela incentivadas) identifica certos traços típicos da cultura contemporânea –a ironia defensiva, o descompromisso emocional, a relutância em assumir compromissos afetivos de larga duração, o sentido de impotência e autosacrifício, o fascínio irracional pelas situações extremas (e a possibilidade de aplicação de suas lições à vida cotidiana), a percepção das organizações de amplo escopo enquanto sistemas de controle totalitário–, como também diferencia o narcisismo da somera autocomiseração. a contração defensiva do ‘eu’ e o apagamento das fronteiras –entre indivíduo e meio– são respostas, também, ao circuito imediato de circulação de imagens-fetiche voltadas para o consumo de massa. fantasiosas e gigantescas imagens. o ‘eu mínimo’ do narcisista é, antes de qualquer coisa, um ‘self’ inseguro de seus próprios limites e natureza, que ora almeja reconstruir o mundo à sua própria imagem, deus ex-machina, ora anseia fundir-se em seu ambiente em união extática, voluntária servidão. as políticas de ‘identidade’ expressam, certo modo e certa medida, esse verdadeiro embaraço em se definir às fronteiras da individualidade. a individualidade é dolorosa consciência da tensão/conflito/contradição entre nossas aspirações ilimitadas e nossa compreensão limitada, entre nossas sugestões originais de imortalidade e nosso estado sempre algo cativo, entre a unidade e a separação, o eu e o outro.
narcisismo é diferente, repetimos e enfatizamos, de vaidade/egoísmo/autoestima. o sujeito narcísico é produto de incipiente vir-a-ser do ‘superego’. o outro é-lhe um ilustre desconhecido impassível de empatia, reconhecimento, identidade (o ‘inferno’ sartreano, enfim). amar –por exemplo, já para além de lasch e sob autoevidente inspiração no ‘elogio ao amor’ | de alain badiou– é sair de si mesmo em busca de algo diferente de si. o que há de política(o) no amor? o que há de amor na(o) política(o)? na situação de crise/crítica –e total desorientação atual– é importante agarrar as mãos ao timão náutico da experiência navegável pela qual estamos todos sempre travessiando, seja na esfera do amor, da arte política, da organização coletiva e/ou do embate hegemônico de ideias e programas. se o desejo da paixão tem seu foco teleobjetivo em um outro visto sempre de forma algo fetichista –sei lá eu!, seios ou nádegas, peitoral e pênis–, o sentimento de amor, por sua vez, totaliza panoramicamente o próprio ser-estar do outro, o outro da forma mesma como irrompeu inesperadamente, na sua maior inteireza pessoal e intransferível, em minha vida, a qual, por consequência, é perturbada/reconfigurada/transformada. para jacques lacan a relação sexual, tão-simplesmente, “não existe”. o psicanalista defendia que esta se colocaria em uma dimensão narcisista, a ligar imaginários. se você se limita ao prazer sexual, é algo típico do sujeito narcísico: você não se conecta ao outro; você tão-só retira dele o prazer que quer. No amor a processualidade mesma significa conquista palmo-a-palmo, dia-a-dia: a eventualidade do acontecimento do encontro verso-a-verso e golpe-a-golpe reconstruída pela invenção de algo renovado pela experiência comum de uma nova verdade. mas, afinal, o que vem a ser aquilo que chamamos ‘amor’?
‘amor total’, um brevíssimo ensaio de elogio a alain badiou como antídoto contra a ‘cultura do narcisismo’
(e para além do ‘mínimo eu’)
o amor é, dentre muitas coisas, uma experiência total e gratuita, autêntico ato político subversivo, e, para o surrealismo francês, loucura. por isso não deixa de se constituir numa íntima rebelião contra a mercadorização da vida e do egóico –e possessivo– individualismo neoliberal, do intercâmbio de ‘equivalentes gerais’, da lógica mesma do capital tout court. querer profundamente a alguém quer dizer, necessariamente, querer algo que não se vende e não se compra. implica aceitar desafios, superar dificuldades, reconhecer a tensão entre o que desejamos imediatamente e a resposta mediatizada do outro. trata-se, ao fim e ao cabo, de uma travessia. se o eu contemporâneo é mínimo, guarda alta e estado de sítio, assim mesmo se encontra o estatuto da mais alta forma de relação interindividual inventada por mulheres e homens. a ameaça ao ‘self’ –tão ausente da foto ‘selfie’– é a mesma que se interpõe ao amor em sua perspectiva de totalidade. por que deveria eu me expor ao sofrimento da aceitação da totalidade do outro tal como ela/ele é? não seria melhor extrair dela/dele o que melhor corresponde a meus interesses mais imediatos, a meus gostos cultivados pessoais e descartar-lhe, daí, tôdo o mais? o amor está ameaçado porque, entre outras coisas, retalhado (e achincalhado) aos pedaços. já viram, por acaso, os aplicativos algoritimizados –à la ‘match machine’ ou ‘par perfeito’ e outros muitos– da alçada do facebook? as pessoas entram em contato com o outro cortado em pedaços, como peças de carne dependuradas num açougue. gostos, interesses, isso + aquilo. é exatamente o contrário do amor. é amor total quando, justamente, em certo sentido, não tenho a menor ideia do que está além de mim mesmo, posto no outro.
o amor total deve reafirmar categoricamente o fato mesmo de que está em ruptura permanente (obstinada) contra o conjunto das leis ordinárias do mundo tal qual viemos a conhecê-lo. o amor total deve ser reinventado como valor histórico-universal, como relação em direção à alteridade, àquilo que não sou eu e onde a generosidade é oxigênio para os pulmões. sem generosidade e solidariedade não há afeto de amor possível. competitividade, ódio, violência, rivalidade e cizânia não são cláusulas pétreas de uma pressuposta e imutável ‘natureza humana’ a priori mas sim formas de organizar a vida. na política verdadeira, componente real da vida verdadeira, há necessariamente tal preocupação, a convicção segundo a qual estou ali enquanto representante e agente inteiro, como diz a canção da internacional no original em francês, do gênero humano. do mesmo modo que ocorre no amor, onde minha preocupação, minha proposta e minha atividade estão ligadas à existência do outro em sua integralidade. o que pode um jovem –e apaixonado– casal contra a concorrência interindividual e a obsolescência programada do reino de mercadorias? a pressão é muito forte. manter o prumo da navegação, a chama de pira do fogo de prometeu, o elemento de exceção. a palavra-de-ordem é lutar para conservar o excepcional que ocorre em nossas vidas. e só depois ver no que dá. sem cálculos e probabilidades. entusiasmo, amoroso ou político, artístico ou revolucionário, é, etimologicamente, “levar os deuses adentro”. para além de derrota ou vitória, o que pouco importa. é como ganhar todo um mundo novo, latente no ventre mesmo do velho. o que vai acontecer? não sabemos. importa mesmo é o que está acontecendo no tempo de agora. quando nos enamoramos de verdade –e sentipensamos, sentimos e pensamos, que estamos vivos– é ‘infinito enquanto dura’. não se trata dum amesquinhado balancete de capital bancário. a loucura radical do amor total é a categórica afirmação de que este mundo não é o único possível, de que muito tempo não é sempre, de que o impossível pode vir-a-ser inexorável.
construir a esperança viável mais vale –hoje e sempre–, já diria o bom e velho raymond williams, do que “tornar o desespero convincente.” esse texto é de um subgênero literário de conto narrativo, oral e milenar, a conversa.

“no princípio foi a ação.” (rosa luxemburg)

beneficiodoinventario

prazer. meu nome é betto della santa. o blog beneficiodoinventario.wordpress.com nasce de uma aposta. não é aquele tipo de aposta, porém, que se faz nos jogos de azar. essa aposta é, sobretudo, pela organização coletiva para o pensamento orientado para a ação, ação essa reciprocamente fertilizada pelo pensamento; o que uns e outros chamariam práxis. o leitmotif que dá nome ao blog é de conhecida inspiração gramsciana, referida logo de entrada no cabeçalho. partimos do pressuposto de que o mundo está de pernas para o ar, e que a vida não vai melhorar sozinha. o que pode um blog frente a um desafio dessa magnitude? pouco. muito pouco, certamente. esse pequeno saite da rede não se propõe mais do que ser uma faísca, uma centelha, uma fagulha do fogo de prometeu. sendo comunista internacionalista –convicto e confesso– desde o seu nascedouro, “nada do que é humano lhe é alheio.” do…

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“no princípio foi a ação.” (rosa luxemburg)

prazer. meu nome é betto della santa. o blog beneficiodoinventario.wordpress.com nasce de uma aposta. não é aquele tipo de aposta, porém, que se faz nos jogos de azar. essa aposta é, sobretudo, pela organização coletiva para o pensamento orientado para a ação, ação essa reciprocamente fertilizada pelo pensamento; o que uns e outros chamariam práxis. o leitmotif que dá nome ao blog é de conhecida inspiração gramsciana, referida logo de entrada no cabeçalho. partimos do pressuposto de que o mundo está de pernas para o ar, e que a vida não vai melhorar sozinha. o que pode um blog frente a um desafio dessa magnitude? pouco. muito pouco, certamente. esse pequeno saite da rede não se propõe mais do que ser uma faísca, uma centelha, uma fagulha do fogo de prometeu. sendo comunista internacionalista –convicto e confesso– desde o seu nascedouro, “nada do que é humano lhe é alheio.” do estômago à fantasia, da cabeça aos pés, e de tudo um pouco: é isso o que vai servir de assunto para nossos homeopáticos dedos de prosa, compassada de um tempo-espaço distendido –para fora e para além– do ritmo da sociabilidade administrada. disse um galhardo jornalista narrativo uruguaio que nós somos o que fazemos, “sobretudo o que fazemos para mudar o que somos.” a expressão ‘desde que me entendo por gente’ dá conta de um tempo em que já fui ala-pivô titular de basquetebol semiprofissional no santos futebol clube, na primavera de meus dezessete anos e, corte para abrupta elipse narrativa, sou –hoje– um jornalista/tradutor/editor/cientista social com seus trinta e quatro cujo sentido de pertença mais essencial é o de um trabalhador em educação no centro de educação, comunicação e artes da universidade estadual de londrina. o desejo de lançar essa publicação ao ar é criar um ponto de encontro para começos de conversa. é, enfim, uma tentativa de articulações e convergências, com nexos de unidade e distinção. (a essa altura o texto de abertura já vai mais longo do que o pretendido, perdoem o blogueiro de primeira viagem.) finalmente, uma frase que é uma promessa: ‘nem só de política vive o homem’. aqui-agora é território livre para temas e questões de cultura, cotidianidade e modo de vida. sejam muito bem-vindos. (“entrai irmãos meus.”) um forte abraço fraternal. sempre vosso, betto.